É possível que um aluno iniciante em Kundalini Yoga tenha a impressão de estar entrando em um espaço religioso. O impacto do turbante, a atmosfera de paz e elevação, os diversos mantras utilizados em aula e alguns retratos dos grandes Professores dessa Tradição, Gurus da Corrente Dourada… Vários elementos previamente registrados em nossa psique como próprios da religião podem trazer essa conclusão apressada. Mas a verdade é que o Yoga não é uma religião. As religiões vieram do Yoga.

Yoga significa “união; reunir”. Viver a partir da perspectiva mais completa da vida: Não só o corpo, não só a mente, não só espírito, mas a soma e o equilíbrio de cada um desses elementos que compõe a complexidade da existência. Não só o Eu, mas também o Outro, e Tudo o que se constrói a partir dessa relação. E em cada um deles, além daquilo que é conhecido, há o Desconhecido. Aprender com essa Força do Desconhecido é capaz de carregar você da escuridão para a luz. A escuridão da ignorância, da restrição e da inconsciência, para a luz da clareza, consciência e vastidão. Nesse percurso, é a nossa própria experiência que nos conecta a essa força, ela não é concedida por algum intermediário a quem se possa outorgar a sua fé.

Em seu artigo Sat Nam: A História Secreta do Kundalini Yoga, James McCrae, do blog S#HIT YOUR EGO SAYS explica:

A definição de yoga que temos hoje no Ocidente é limitada, pois descreve um tipo específico de exercício. Mas, para os povos antigos, o yoga era uma conexão sagrada entre corpo e alma. Seu objetivo não era malhar o corpo, mas fazer contato direto com Brahman, o espírito divino que habita todos nós. Religiões que agiam como intermediários entre Deus e a humanidade não eram necessárias. Apenas a prática era necessária. Das diversas formas de yoga desenvolvidas nos últimos 5 mil anos, o Kundalini Yoga era considerado o mais sagrado. Não sabemos qual é a origem exata do Kundalini Yoga, mas sua mais antiga menção remonta aos escritos védicos conhecidos como Upanishads (c. 1000 a.C. – 500 a.C.).

Nosso Professor Yogi Bhajan (26/07/1996) resume:

“Kundalini Yoga não é uma religião. As religiões vieram dela.
Kundalini Yoga não é um capricho, não é um culto.
É uma prática da experiência da própria excelência de uma pessoa,
que está adormecida e que é despertada”.

No Gurdwara promovido pela ABAKY (Associação Brasileira dos Amigos do Kundalini Yoga) em Belo Horizonte (02/04/2017), quando nos assentamos para compartilhar não uma religião, mas uma mesma Consciência, nossa Professora Gurusangat Kaur Khalsa nos trouxe uma bela história do Guru Nanak, o primeiro dessa Tradição, que aborda essa tema com profunda clareza e simplicidade.

Este relato está no livro Walking with Nanak, do jornalista muçulmano paquistanês Haroon Kalid que coletou registros das longas viagens pela Ásia que Guru Nanak fazia, conversando com pessoas, conhecendo locais, coletando poemas e compondo canções.

Um dia o capitão de um navio buscava um local sagrado para fazer sua oração. Desejava proteger sua embarcação dos perigos do mar, e sentia que essa era a forma de garantir sua segurança e de seu navio.

Ao entrar em na sala de um templo, encontrou um senhor meditando. Era Guru Nanak. Os dois passam bastante tempo conversando, e o capitão do navio fica encantado com a profundidade do pensamento daquele senhor, Nanak. Ele se identifica com a verdade daquelas palavras, embora não consiga perceber a que credo ou religião ele estivesse vinculado. Ele então pergunta:

Como eu poderia me tornar seu seguidor? Qual religião eu deveria seguir para me tornar seu devoto?

Guru Nanak então responde:

“Para que você se torne parte do meu grupo, você deveria apenas ter uma vontade indescritível de aprender sobre a sua própria vida. Você deveria permanecer para sempre um estudante, como eu. Você deveria aprender não só com os acadêmicos e com as pessoas sagradas, mas também com aqueles que você escolhe ignorar, como serviçais, as mulheres, as crianças, os animais, as plantas, o mar, as terras e o céu.

Mantenha sua mente sempre aberta, e nunca se torne dogmático ou rígido nas suas crenças. Dogma é o fim da pergunta, e portanto é a morte da iluminação. Tenha fé, não apenas na sua própria bondade, mas tenha fé na bondade de todos. Tenha fé nas pessoas mesmo quando elas o desapontarem ao extremo. Tenha fé que as coisas vão sempre funcionar. Talvez demore, mas elas vão sempre se ajustar. Tenha fé no mar, que nunca trairá sua confiança, e não coloque a sua fé tão rasa que você precise buscar algum ídolo para você oferecer suas orações para que o mar seja bom para você. Tenha fé que você é o altar, você é quem vai ao altar, e que o seu altar de fé e dignidade te faz muito próximo daquilo que você considera o seu maior desafio.

Lembre sempre que você pertence a um tipo de credo particular: é o credo que crê em si e que crê em tudo que existe a sua volta. A sua religião deveria se tornar a mesma, você não deveria mudar nada para se tornar meu estudante. Você deveria apenas se lembrar que se você for um muçulmano, torne-se um muçulmano imaculado, se você for um cristão, continue o melhor cristão que você puder ser, se você for um judeu, torne-se o melhor judeu que você puder ser. Torne-se aquilo que você tem de ser, mas nunca se esqueça que no centro de tudo, na essência de tudo, existe você com você e Deus. Nunca se esqueça que você não precisa de uma pedra para rezar. Você pode rezar. E o mar será sempre o seu amigo”.

 

Com Amor e Bênçãos,

Prem Bhagat Singh

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