Relacionamentos não são espaços onde eu estou com outro para o que for bom e me agrada e o que for ruim eu rejeito, mas sim um espaço de crescimento comum. Yogi Bhajan nos explica que relacionamentos são para que possamos nos perceber, para que possamos nos ver, porque estando sozinhos nossa capacidade de vivenciar, compreender e desenvolver é limitada.

Muitos de nós temos a crença no relacionamento perfeito. Alimentamos as ilusões do par perfeito, da família perfeita, da amizade perfeita sabendo que essa característica pertence ao Divino, e que na Terra nós estamos no processo constante de construir e reconstruir, de renegociar, crescer e descobrir o que é estar junto em nossas relações.

E será que realmente existe alguma relação perfeita? E o que é perfeito?

Os meios de comunicação ao longo dos anos nos ajudaram a criar a crença na família “margarina”, aquela perfeita que todo mundo acorda lindo, toma o café da manhã sorrindo, os filhos adolescentes de bom humor, sempre muito gentis. Acabamos comprando uma ideia de que a meta do relacionamento é aquela em que não há conflito, não há mau humor, não há oscilações e tudo está garantido e confortável. Dessa forma muitas vezes, entramos em um relacionamento desejando que ele siga exatamente este padrão.

Passamos a querer não uma pessoa para um relacionamento e sim uma lista de padrões e de referências que aprendemos culturalmente pela publicidade e dessa forma não só objetificamos o outro, porque não estamos abertos para lidar com o desconhecido que está ali diante de nós, desconhecido no sentido do universo que o outro é, como sentenciamos o outro a atender aquela demanda. Se ele não nos atender, não ficamos felizes e acreditamos que o relacionamento não funcionou.

Porque estamos constantemente nessa procura ilusória de um relacionamento perfeito, muito organizado e estático se a natureza, que podemos considerar perfeita está em constante mudança?

A natureza está o tempo inteiro se reciclando, criando novas formas. Do amanhecer até o anoitecer, a luz do sol muda toda a natureza, tem coisas crescendo, morrendo, renascendo e observamos isso dentro do nosso corpo também. Temos células que nascem, morrem e renascem o tempo todo. A vida está em constante transformação em constante renovação e reciclando o tempo inteiro. Então, por que insistimos tanto nessa perfeição?

Porque para nossa mente é mais seguro se nada mudar, só que a vida está além da nossa zona de segurança.

A geração que hoje está acima dos 40 trouxe a ideia de que o modelo de relacionamentos dos nossos pais, dos nossos avós eram os ideais. Só que passamos de uma época para outra e tudo mudou tão rápido, que hoje nós não temos um modelo sólido, porque todos os modelos estão em desconstrução de conceitos e de preconceitos.

Como está acontecendo essa desconstrução nos modelos antigos de se relacionar a abertura interna é o principal para criarmos um espaço fértil para mudança.

Sempre que tentamos justificar nosso comportamento de inflexibilidade como sendo o resultado de algo que se aprendeu no passado, observando o comportamento dos pais por exemplo, acreditando que isso é a realidade e o outro é que precisa atender a nossas expectativas, não damos espaço para o outro ser ele mesmo. Não damos espaço para criação, para mudança e ferimos um princípio fundamental do Dharma, que é onde o Kundalini Yoga se insere, que é: ver a realidade como ela é.

Quando queremos uma relação digna, verdadeira e autêntica nós precisamos entrar no nosso mundo interno, e ao fazer isso podemos perceber que não somos tão verdadeiros, tão dignos e tão autênticos, e não há nada de errado com isso. Nós não somos 100% bons ou maus o tempo todo. O que podemos fazer para criarmos relações mais significativas é ter pequenas ações, como experimentar um pouco de silêncio, de escuta, ou estabelecer um limite.

Outro aspecto importante que podemos observar é que quando estamos com outro em uma relação de amizade, de trabalho ou um casamento, precisamos ter muito claro qual o propósito da relação. Se o propósito de um tem sentido com o propósito do outro, por mais que haja atritos no meio do caminho o proposito está lá. Brigar, discutir tudo isso faz parte de uma relação, porque estamos nessa Terra para aprender e quando somos humildes o bastante para entrar nas relações como aprendiz fica mais gostoso de aprender e o propósito entra como um grande balizador.

Há coisas que não tem sentido para o outro, e tudo bem. Você pode manter uma relação só de amizade, mas se você quer construir uma relação, o propósito tem que ter sentido para os dois.

Se você quer ter uma relação conjugal interessante, há de cultivar um propósito para ambos, sem ele com o tempo a relação mina, porque cada um acaba seguindo caminhos diferentes mas, havendo propósito, caminham juntos. Cada um vai ter sua experiência individualmente, mas existe um caminho comum para ambos.

É aquela imagem das pedrinhas rolando até chegar ao rio, essas pedrinhas têm destino. Dentro de uma relação tem algo que unifica, onde os dois vão render a cabeça e dizer “OK, tá bem, eu posso ceder”, “OK, você pode ceder”. Não tem um lugar de competição, nem de comparação e de controle, não se quer anular o outro, é um lugar de construção, exercitada o tempo todo. Não é estático.

É muito bom pensarmos na psique chamada casamento, onde decidimos ficar juntos e que existe ali um propósito onde a construção é feita todos os dias. É como regar uma planta, ela precisa ser cuidada é como o alimento para o corpo, fazermos isso todos os dias para ficarmos saudáveis.

Por quê, então, não alimentamos e nutrimos as nossas relações de amizade, nossas relações intimas e caminhamos com essa ideia?

Será que não passamos da hora de romper com essa história de querer a perfeição e perceber as diferenças como um enriquecimento da relação e não algo a ser vencido, supera ou sobreposto?

Claro que não é algo fácil, mas temos a vida toda para fazer isso. Só tem uma forma de viver: verdadeiramente, conscientemente. Assumir a complexidade natural dos relacionamentos e aprendermos a incluir tudo que vem da realidade.

 

 

Luz e bençãos,

 

Sat Nam!

 

 

Imagem em destaque:freepik

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